REFLEXÃO ACERCA DA MORTE…

Chama que recorda nossos mortos.

          O mês de novembro talvez seja o mais propício para se pensar aquilo que se faz ou se deixa de fazer, tendo presente a comemoração de todos os Santos – exemplos de vivência e amor ao Evangelho, e também a memória daqueles que nos precederam – os Finados.
         Não se pode fugir da realidade. Todo ser humano é mortal e precisa saber dialogar com o mundo que o circunda, inclusive com a morte: fato inexplicável, diante do qual qualquer pessoa se cala. De São Francisco de Assis aprende-se que a morte é irmã, aquela que toma a pessoa pela mão e a conduz para o desfecho misterioso da vida. 
         O ser humano, imagem do Criador, vive numa encruzilhada entre dois verbos: o “ser” e o “ter”. Contudo, as boas obras que são feitas durante a vida terrena ninguém consegue recolher, depositar dentro de um esquife e sepultar ou cremar. As ações e gestos feitos por uma pessoa são conservados pela consciência comum da família, dos amigos, da sociedade, e com o passar do tempo servem de ilustração e referência. Aquilo que se possui, ninguém consegue levar para o cemitério – afinal de contas, ele não existe para isso. No entanto, aquilo que de ruim for feito, também ficará marcado de maneira indelével na consciência das pessoas, não é sepultado, não se acaba. Daí está a necessidade de se viver, o máximo possível, de maneira exemplar, pois tudo aquilo que é “plantado” um dia será “colhido”, ou pelo menos observado na “lavoura” da vida. 
         O importante é não esquecer a dimensão humana do “ser”: o que se é de fato, de maneira especial o interior, o profundo do ser humano – este ninguém conseguirá apagar, sepultar, excluir do horizonte de pensamento das pessoas que permanecem na terra; já uma construção, uma reforma feita, apesar de também marcar certo espaço de tempo e pessoas na história, poderá ser, posteriormente, destruída com o simples apertar de botão e com o tempo facilmente é esquecida.
No mês em que são celebrados os finados, tudo fala de vida: as flores, os santos que são celebrados em novembro e a semente da Fonte de Vida (Natal) que é o primeiro domingo do Advento, de modo que se pode afirmar com convicção, que morrer é viver. Evidentemente, a razão de tudo isso é a pessoa de Jesus Cristo, o Salvador da vida. Certa vez alguém já afirmou, referindo-se a Jesus: “Ele foi tão humano que só poderia ser Deus”.
         Jesus é aquele que dá a Vida Eterna, mas o “mundo” o rejeitou. Todavia, essa recusa não foi causa de tristeza para o Filho de Deus: “Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que me enviou”. A missão de Jesus, e também a missão de cada pessoa é “procurar e salvar o que estava perdido”. É hora de pensar naquilo que está perdido na vida. É hora de “despertar para a vida”. A celebração dos fiéis defuntos é um momento oportuno de reflexão e revisão de vida no vasto campo antropológico e teológico que é oferecido como perspectiva de fundo.
         Para alguns, a morte é dolorosa, um fim. Daí, aparece todo o esforço da negação da mesma, da luta pela sobrevivência, num combate a todo custo para se continuar vivendo. Pena que, muitas vezes, essa luta não se dá de forma satisfatória, segundo as propostas cristãs. Até falar da morte, por vezes, torna-se proibido. Contudo, para quem crê, a morte é a chegada e a vida em Deus de modo “pleno”; é a certeza da vida humana nas mãos de Deus. Deve-se iluminar o mistério da morte cristã com a Luz de Cristo Ressuscitado, encontrando aí o sentido desse acontecimento como passagem natural, momento inerente à vida humana, não como um fim, simplesmente.
         A morte, sendo encarada de maneira natural, recorda que cada ser humano dispõe de um tempo limitado para viver bem. Graças a Cristo, a morte cristã possui sentido positivo: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 21). Na pessoa de Jesus ressuscitado, Deus se revela como Aquele que ressuscita os mortos, que dá a Vida eterna. Da mesma forma que ressuscitou Jesus, Deus ressuscitará o homem e a mulher. E quando será? Não cabe ao ser humano decidir sobre o limite da morte, pois a vida humana é de direito divino: tudo está nas mãos do Criador, ou seja, tudo converge para a eternidade onde não há relógio nem calendário: vive-se a imortalidade. O importante é viver bem o tempo presente como preparação para o tempo de Deus: “assim como, pela manhã, a gota de orvalho pendente da pétala de uma flor, embora pequenina, reflita a imensidão do céu, assim cada momento do tempo carrega em si toda a dimensão da eternidade” (Karl Rahner).

Rafael Uliano

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