PENSAR O AMOR, A CASTIDADE E O CELIBATO

               

A Esposa do Poeta - Arturo Martini

               Acompanhamos nos últimos anos, notícias que traziam à tona denúncias contra padres, bispos, religioso(a)s, pais de família, professores… As denúncias eram acusações que aos poucos foram pipocando mundo a fora, inclusive no Brasil.

                O papa Bento XVI, em sua Carta pastoral aos católicos da Irlanda, ressaltou que “o problema do abuso dos menores não é específico nem da Irlanda nem da Igreja”. A Igreja não nega em seu corpo essa chaga aberta; também não pode simplesmente deixar-se criticar de maneira infundada… A verdade deve ser evidenciada, e as inverdades denunciadas. Com essa intenção, foi divulgado no Jornal do Vaticano L’Osservatore Romano (25/03/2010) que “há uma tendência prevalecendo na mídia, de ignorar os fatos e fazer interpretações, com o objetivo de espalhar a imagem da Igreja Católica como a única responsável por abusos sexuais, algo que não corresponde à realidade”. E porque não corresponde à realidade? Procure por tantos outros dados disponíveis hoje na internet: existiram na Alemanha, desde 1995, 210 mil denúncias de abusos a menores. Dessas, 300 envolviam padres católicos. Ou seja, menos de 0,2%. Trata-se de um único exemplo, mas a proporção é questionadora. Evidente que um só caso já seria gravíssimo. O problema é a generalização.

                Nossa intenção não é fazer uma análise de dados. A finalidade a que se quer chegar, parte do dado anteriormente citado, sim, de modo a discutir acerca da vivência da sexualidade humana em diversos aspectos: amor, castidade, celibato. São temas que não serão exaustivamente explorados, mas rapidamente refletidos. A pretensão é provocar uma reflexão posterior mais aprofundada.

 Amor

                Conversando-se, hoje, com pessoas idosas, ouvem-se relatos de que há algumas décadas o amor era de tal modo vivo que, aqueles que se amavam, chegavam a subir em árvores e muros para ver o amado. Não cabe aqui julgar se o amor hoje é melhor ou pior que o de outrora, mas dizer que hoje existe aquilo que se chama de “ruído” nas relações afetivas. Na modernidade, a questão é: fazer sexo ou ser feliz no exercício da sexualidade, num encontro amoroso? Há alguns anos, o amor romântico era incentivado, hoje é a banalidade dos corpos que fala mais alto. É muito perigoso acreditar que não é possível construir relações sexuais e afetivas duradouras. Talvez para muitos casais a vida hoje esteja chata, sem sentido, sem o elã que se possuía nos velhos tempos de namoro. A causa desse desencantamento pode estar relacionada com a infelicidade na vivência da sexualidade como um todo. É comum, nas rodas de amigos, conversar-se sobre sexo como sendo apenas um objeto a ser explorado. Um objeto que proporciona prazer e ponto final. Houve uma inversão de eixo, no tocante ao namoro com vistas ao matrimônio, passando à esfera do corpo como mercadoria. Na era dos descartáveis, lá se vão, corpos e corpos, para o lixo moral. O amor torna-se egoísta, individualista… Cadê o verdadeiro amor? Uma casa construída com cimento de péssima qualidade, certamente desabará… Um casamento contraído sem verdadeiro amor também não será duradouro. Amar é uma decisão: decidir-se por pensar no outro, antes mesmo de pensar em si próprio. Os relacionamentos descartáveis podem ser configurados como amor?

 Castidade

               É comum pensar: casto é aquele que não mantém relações sexuais. Não está errado, porém, o conceito é mais do que isso, pois todo casal é convidado a viver a castidade dentro do matrimônio. É possível? Sim. É fácil? Não. A carne é fragilíssima e viver a castidade exige muitas opções que por sua vez levam a renúncias, fazendo com que o pensamento primeiro seja sempre no cônjuge e não em si.

               A castidade não é apenas o não uso do órgão genital, mas é a consciência, a qualidade de relacionamentos entre um homem e uma mulher, capazes de uma sadia convivência. Uma vida casta é uma vida exemplar. A vivência sexual na vida de um casal, não é algo pecaminoso… É o ápice da vivência do amor-doação. O ato sexual é o meio pelo qual as pessoas colaboram com Deus em seu plano criador. A vida sexual do casal é bonita e importante para que marido e mulher se complementem e sejam felizes. O despreparo nesse campo leva muitos casais à separação, donde a necessidade da castidade matrimonial. Observando o sexo como puro meio de prazer, as dimensões unitiva e procriativa perdem todo o sentido.

               São Paulo diz: “Cumpra o marido o seu dever conjugal para com a esposa, e a esposa, do mesmo modo, para com o marido. Não é a mulher que dispõe de seu corpo, mas o seu marido. Do mesmo modo, não é o marido que dispõe de seu corpo, mas a sua mulher. Não vos recuseis um ao outro, a não ser de comum acordo e por algum tempo, para vos entregardes à oração. Voltai depois à convivência normal, para que Satanás não vos tente, por vossa falta de domínio próprio” (1 Cor 7,3-5).

               Na realidade dos padres ocidentais, estes não se casam não para conotar que o sacerdote não deve perder sua pureza (de novo a idéia de que o sexo é impuro, indecente, pecaminoso), mas com o celibato dos sacerdotes, afirma-se claramente a beleza que é a vida sexual entre homem e mulher. Ser casto, para os padres, é renunciar a este prazer, a esta beleza divina… A conseqüente renúncia da opção pelo celibato, só tem sentido quando se renuncia a algo que é muito bom. Afinal de contas, não optar por algo que não seja bom não se trataria de renúncia, mas de astúcia.

 Celibato

               O Celibato (do latim cælibatus significa “não casado”). Para os padres orientais a norma é que se opte pelo casamento ou celibato antes da ordenação.

               Nos últimos tempos, a Igreja católica ocidental (de rito latino) vem sofrendo algumas pressões para o fim, ou pelo menos a possibilidade de escolha do celibato, para o seu clero. Não pense você que esta mentalidade é uma luta pelo padre casado, simplesmente. O casamento supõe castidade cristã, supõe fidelidade, e isto também é complicado. A castidade não é difícil só para quem é celibatário; é um desafio para todos, inclusive para os casados. Um diálogo entre um jovem leigo e um padre jovem: “padre, não sei como você agüenta o celibato”, ao que o padre respondeu: “não sei como você agüenta a castidade no casamento, pois ela é dura e difícil”. Celibato é um carisma. Para se entender um carisma é necessário ter fé. A diminuição de candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa parece não girar em torno do celibato, mas sim, da falta de fé – que é a raiz do problema.

               Se o padre não tem uma mulher para amar, o que ele amará? A Deus, ao povo e o presbitério (amor aos padres e ao bispo). São os três lugares privilegiados nos quais o padre ama. Parece coisa de outro mundo? Parece impossível? Talvez sim, para quem não tem fé!

               O fato de o padre ocidental não ter filhos (paternidade carnal/física) não significa uma vida de infertilidade: essa opção pelo celibato no estrito sentido do termo, conseqüentemente de não ter filhos biológicos, significa uma verdadeira vida como sementeira fecunda da paternidade espiritual – que deve ser o foco central do ministro ordenado.

               É errado afirmar que a juventude atual não aprecie mais o celibato, a castidade… É apreciada e de modo muito especial quando essa vida de renúncias desemboca na prática e doação total às pessoas, principalmente para com os pobres. Disse a russa Catarina de Hueck Doherty (Fundadora do Apostolado Leigo Madonna House): “receio que a diminuição do número de moços que escolhem o sacerdócio aconteça por não verem testemunhos eloqüentes de amor e doação em seus próprios pastores”.

 

Rafael Uliano

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2 Respostas to “PENSAR O AMOR, A CASTIDADE E O CELIBATO”

  1. Irene Della Giustina Says:

    ADOREI O TEU ARTIGO. COMO LEIGA VALE REFLETIR SOBRE O ASSUNTO. TENHA CERTEZA FOI DE GRANDE VALIA. PARABENS. QUE DEUS CONTINUE TE ILUMINANDO E ABENÇOANDO .

    ABRAÇOOOOOOO IRENE

  2. ANDRESA Says:

    Oi, que neste ano de 2011 Deus continue te iluminando com tamanha sabedoria Rafael, porque esse teu artigo está excelente, são explicações de fácil entendimento e necessárias para nós, pois muitas vezes falamos bobiça por simples falta de informações. Esse artigo nos faz refletir sobre esse grande dilema que é o amor e o sexo, deixando claro que podemos realmente amar as pessoas de uma forma grandiosa, pois o amor é grandioso, pleno, contemplativo que não se resume simplesmente ao ato sexual e suas banalidades, vai muito além. Abraço e que Deus te abençõe meu amigo.

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