A IGREJA VIVE DA EUCARISTIA – V


          No quinto capítulo da encíclica sobre a Eucaristia, que recebe como título o decoro da celebração eucarística, o Papa afirma que a Eucaristia, ao mesmo tempo em que plasmou a Igreja e a espiritualidade, incidiu intensamente sobre a “cultura”, especialmente no setor estético.
          Na perspectiva duma arte que, em todos os seus elementos, visa exprimir o sentido da Eucaristia segundo a doutrina da Igreja, é preciso prestar atenção às normas que regulamentam a construção e o adorno dos edifícios sacros. A arte sacra deve caracterizar-se pela sua capacidade de exprimir adequadamente o mistério lido na plenitude de fé da Igreja e segundo as indicações pastorais oportunamente dadas pela competente autoridade. Isto vale tanto para as artes figurativas como para a música sacra.
          “(…) a liturgia sagrada exprime e celebra a única fé professada por todos e, sendo herança de toda a Igreja, não pode ser determinada pela Igreja local, isoladamente da Igreja universal”.
          Lamenta que, sobretudo a partir dos anos da reforma litúrgica pós-conciliar, por um ambíguo sentido de criatividade e adaptação, não faltaram abusos, que foram motivo de sofrimento para muitos. Certa reação contra o “formalismo” levou alguns, especialmente em determinadas regiões, a considerarem não obrigatórias as “formas” escolhidas pela grande tradição litúrgica da Igreja e do seu magistério, e a introduzirem inovações não autorizadas e, muitas vezes, completamente impróprias.
          A liturgia não é propriedade de ninguém, nem do celebrante, nem da comunidade onde são celebrados os santos mistérios. O sacerdote, que celebra fielmente a missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso, mas expressivo, o seu amor à Igreja. A ninguém é permitido rebaixar, desonrar este mistério. É demasiado grande para que alguém possa permitir-se tratá-lo a seu livre arbítrio, não respeitando o seu caráter sagrado nem a sua dimensão universal.
          No último capítulo, o papa destaca Maria como mulher Eucarística, dizendo que ela pode guiar os cristãos para o Santíssimo Sacramento, porque tem uma profunda ligação com ele.
          Para além da sua participação no banquete eucarístico, pode-se delinear a relação de Maria com a Eucaristia indiretamente, a partir da sua atitude interior. Maria é mulher “eucarística” na totalidade da sua vida. A Igreja, vendo em Maria o seu modelo, é chamada a imitá-la também na sua relação com este mistério santíssimo.
          Todas as vezes que se repete o gesto de Cristo na Última Ceia dando cumprimento ao seu mandato “Fazei isto em memória de Mim”, ao mesmo tempo se acolhe o convite que Maria faz para que se obedeça a seu Filho sem hesitação: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2, 5).
          Maria praticou a sua fé eucarística ainda antes de ser instituída a Eucaristia, quando ofereceu o seu ventre virginal para a encarnação do Verbo de Deus. Na visitação, quando leva no seu ventre o Verbo encarnado, ela serve de “sacrário” – o primeiro “sacrário” da história –, para o Filho de Deus, que, ainda invisível aos olhos dos homens, se presta à adoração de Isabel, como que “irradiando” a sua luz através dos olhos e da voz de Maria.
          Preparando-se dia-a-dia para o Calvário, Maria vive uma espécie de “Eucaristia antecipada”, dir-se-ia uma “comunhão espiritual” de desejo e oferta, que terá o seu cumprimento na união com o Filho durante a Paixão, e manifestar-se-á depois, no período pós-pascal, na sua participação na celebração eucarística presidida pelos Apóstolos como “memorial” da Paixão.
          Impossível imaginar os sentimentos de Maria, ao ouvir dos lábios de Pedro, João, Tiago e restantes apóstolos as palavras da Última Ceia: “isto é o meu corpo que vai ser entregue por vós” (Lc 22, 19). Aquele corpo entregue em sacrifício e presente agora nas espécies sacramentais era o mesmo corpo concebido no seu ventre! Receber a Eucaristia devia significar para Maria quase acolher de novo no seu ventre aquele coração que batera em uníssono com o d’ela e reviver o que tinha pessoalmente experimentado junto da Cruz.
          Se Igreja e Eucaristia são um binômio indivisível, o mesmo é preciso afirmar do binômio Maria e Eucaristia. Por isso mesmo, desde a antiguidade é unânime nas Igrejas do Oriente e do Ocidente a recordação de Maria na celebração eucarística.
          No Magnificat está presente a tensão escatológica da Eucaristia. Cada vez que o Filho de Deus se torna presente entre nós na “pobreza” dos sinais sacramentais, pão e vinho, é lançado no mundo o germe daquela história nova, que verá os poderosos “derrubados dos seus tronos” e “exaltados os humildes” (cf. Lc 1, 52).
          Na conclusão é ressaltado que cada esforço de santidade, cada iniciativa para realizar a missão da Igreja, cada aplicação dos planos pastorais deve extrair a força de que necessita do mistério eucarístico, e orientar-se para ele como o seu ponto culminante.
          Dando à Eucaristia todo o realce que merece e procurando com todo o cuidado não atenuar nenhuma das suas dimensões ou exigências, dá-se provas de se estar verdadeiramente consciente da grandeza deste dom. E não há perigo de exagerar no cuidado que se dedica à Eucaristia, porque, “neste sacramento, se condensa todo o mistério da nossa salvação”.

Síntese: Rafael Uliano

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: