A RESSURREIÇÃO DA CARNE


……….
A teologia atual propõe a superação do extremo entre uma ressurreição puramente fisicista e outra meramente espiritual, para se chegar a uma compreensão integral da ressurreição da carne.

……….O fato de uma pessoa ser homem/mulher; sedentário/atleta; branco/negro/amarelo/vermelho interfere no seu “eu”, na sua personalidade! Assim, na morte e ressurreição, esses aspectos serão elevados, glorificados, transformados… O corpo físico, a atividade desenvolvida na vida terrena, a etnia não se farão presentes fisicamente no céu (afinal, o céu não é um lugar físico, não podendo, portanto, dar lugar a “corpos” físicos). Entretanto, os aspectos citados, dentre outros, ressuscitarão, transformados, acompanharão a alma, o espírito, o corpo pneumático.
……….Para São Paulo, “corpo” significa algo diferente de “organismo”, que funciona com particularidades biológicas. Sabe-se que esse organismo, na morte, está definitivamente destinado à decomposição. Nem a ressurreição vai revivificar a matéria transitória; afinal de contas, não se deve imaginar a ressurreição dos mortos “materialmente”. Deus dá, na ressurreição, um “corpo pneumático” totalmente modificado, efetivado pelo Espírito Santo. “Semeado corruptível, ressuscita-se incorruptível; semeado desprezível, ressuscita-se glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita-se cheio de força; semeado corpo terreno, ressuscita corpo pneumático (1Cor 15,42-44).
……….Para melhor compreender o “corpo pneumático”, a comparação com a Eucaristia é bastante rica. Quando Jesus diz, “tomai, comei, isto é meu corpo que é dado por vós”, “corpo” representa a pessoa inteira de Jesus, toda a sua vida e morte a serviço do Reino de Deus. Jesus não dá para comer literalmente sua carne terreno-corporal (com pele e ossos). Ele entrega, no pão partido e no vinho distribuído, seu sacrifício de vida aceito por Deus, seu amor que se esbanja até a morte para a salvação de todos. Este é seu “corpo vivo”, acolhido na vida eterna de Deus e transformado, é seu “corpo pneumático”, o corpo da ressurreição do qual também todos farão parte.
……….Por experiência se conhece apenas um corpo que é, ao mesmo tempo, concebido organicamente. A promessa bíblica da ressurreição dos mortos conta abertamente com a possibilidade de nem toda forma de “corporalidade” significar ao mesmo tempo “organicidade”. Quando se vê o rosto enrugado de um idoso, se reconhece aí muito mais do que uma forma determinada de pele, carne e ossos. Reflete-se, ali também, muita coisa da história daquela pessoa, com todo seu fardo e prazer. Isso faz perceber que o “corpo” é mais do que um organismo biológico. É desse corpo que se trata na Eucaristia e na ressurreição dos mortos, e não simplesmente do substrato biológico do organismo, que, contudo não é omitido aí de modo nenhum.
……….É o caso, então, que haverá um corpo não-orgânico (pneumático) depois da morte, por que ele, então, é designado com a palavra “corpo”, que normalmente designa também o “organismo”? Uma resposta bastante plausível seria a que esse homem consumado é também chamado “corpo” pela tradição bíblico-eclesial por causa da ressurreição dos mortos que ocorre pela permanente vinculação do homem com a vida terrena, com seu organismo terreno que deve ser salientado e mantido.
……….O conceito “alma” circunscreve mais a “abertura a Deus” no homem; o conceito “corpo”, mais sua “vinculação à terra”. Ambos, porém, aplicam-se à pessoa. Por essa razão, Jesus ressuscitou da morte também corporalmente; ou seja, ele mesmo, com toda a sua história de vida, com tudo o que ele fez e sofreu. A comunicação do amor de Deus por parte de Jesus se deu de modo corporal em sua palavra libertadora, sua ação salvífica, sua morte redentora. Isso tudo é conservado em seu corpo de ressurreição e levado junto para a vida em Deus, dando-se ao “corpo de Cristo”, consumado no céu, sua forma irrevogavelmente vinculada à terra. Essa corporalidade consumada de Jesus e dos outros mortos já não é a mesma dessa vida terrena, mas ela suprassume em si (como “memória” da vida vivida na terra) tudo da corporalidade transitória que é significativo para a salvação definitiva, para a consumação do “corpo e alma”.

Rafael Uliano

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