SEGUNDAS NÚPCIAS (I)

Segunda UniaoDiante da realidade de bastantes casos, na Igreja Católica, de casais em segunda união, e sabendo que em última instância os critérios a ser adotados são os da fé, e não o da mentalidade vigente na sociedade cabe, uma reflexão extramuros.

O exemplo de outra confissão religiosa, sem pretensão alguma de intervir na Igreja Católica Apostólica Romana, se faz na tentativa de buscar respostas e abrir caminhos necessários às questões atuais. Como assegura o Código de Direito Canônico no c. 218 “os que se dedicam ao estudo das ciências sagradas gozam da justa liberdade de pesquisar e de manifestar com prudência o próprio pensamento sobre aquilo em que são peritos, conservando o devido obséquio para com o magistério da Igreja”.

O Cardeal alemão Walter Kasper, membro do Sínodo dos Bispos, de outubro de 2014 a 2015, destacou em entrevista que a doutrina, em si, não pode ser mudada, “a questão é a aplicação na situação concreta”. “A situação mudou muito em nossa sociedade ocidental e surgem novas situações. Agora o sínodo tem que se fazer perguntas”. Não será uma decisão “democrática”, já que “a Igreja não é uma democracia; é fruto de um processo sinodal, que é diferente de uma democracia, porque, no final, quem decide é o papa”.

Assim, cabe dizer que a partir do desejo daqueles que querem fazer um caminho de penitência, tendo em tela a célebre expressão “feliz culpa de Adão, que nos fez merecer tão grande salvação”, e buscam viver uma vida conjugal de modo cristão, mesmo que ainda unidos pelo sacramento do matrimônio a outro cônjuge, após tentativa de declaração de nulidade matrimonial sem sucesso, cabe o conhecimento e o discernimento acerca da prática pastoral católica, a partir do exercício da Igreja Ortodoxa Grega, segundo o autor Andrea Palmieri:

Às vezes, em ambientes católicos romanos diz-se que a Igreja Ortodoxa tolera o divórcio: a afirmação é um tanto gratuita, particularmente numa época em que, falando de divórcio, pensa-se imediatamente na instituição jurídica moderna. Na realidade, a Ortodoxia absolutamente não é “divorcista”: ela assume como próprias as palavras de Jesus a respeito do repúdio (enquanto ato unilateral e humano de dissolução de um liame divino). Todavia, como medida de concessão e de bondade [divinas], baseando-se no fato de que o próprio Cristo permitiu uma exceção (Mt 19,9) à sua rejeição do repúdio, a Igreja ortodoxa está disposta a tolerar as segundas núpcias de pessoas cujo vínculo matrimonial tenha sido dissolvido pela Igreja (não pelo Estado), com base no poder dado à Igreja de ligar e desligar, e concedendo uma segunda oportunidade em alguns casos particulares (especificamente, nos casos de adultério continuado, e, por extensão, também em alguns casos nos quais o vínculo matrimonial se tornou uma ficção). Embora a desaconselhando, prevê-se também a possibilidade de um terceiro matrimônio, ao passo que é sempre proibido um quarto. Além disso, a possibilidade de aceder a segundas núpcias nos casos de dissolução do matrimônio só é concedida ao cônjuge inocente. As segundas (e terceiras) núpcias, diversamente do primeiro matrimônio, são celebradas com um rito especial, de caráter penitencial (cujo princípio é o reconhecimento de uma situação de falência), que contém uma oração de absolvição (a praxe católica romana não prevê um rito litúrgico para as segundas núpcias). Dado que no rito das segundas núpcias faltava antigamente o momento da coroação dos esposos (que a teologia ortodoxa considera o momento essencial do matrimônio), há uma justificação teológica para dizer que as segundas núpcias não são um verdadeiro sacramento, mas, quando muito – conforme uma terminologia latina – um sacramental, que permite aos novos esposos considerarem a própria união como plenamente aceita pela comunidade eclesial. O rito das segundas núpcias se aplica também ao caso de esposos que ficaram viúvos, e isso permite afirmar que a Ortodoxia, em linha de princípio (e diversamente do Catolicismo romano), autoriza só um verdadeiro matrimônio sacramental em toda a vida.

(Continua na próxima postagem....)
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2 Respostas to “SEGUNDAS NÚPCIAS (I)”

  1. Cleusa Cabral Says:

    Mto interessante. Abc

  2. Sergio Sebold Says:

    Amigo Rafael, Paz e Bem.

    Finalmente creio que estou conseguindo contatar com o amigo. Tenho encaminhado diversos artigos para o jornal Notisul, mas não estou mais tendo receptividade. Creio que não está mais chegando a suas mãos, ou o amigo não está mais nesta função da redação. Diante desta circunstâncias, usei o endereço do Padre Jeremias, mas não tive qualquer resposta do mesmo. Talvez agora através desse endereço tenha alguma resposta, sobre o que está ocorrendo.

    Sobre o artigo, muito legal, diante de tanta discussão sobre este assunto de casais de segunda união.

    O Abraço fraterno.

    Sergio Sebold

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