OS GRUPOS DE FAMÍLIAS COMO LUGAR DA MISSÃO II

15/10/2012

…..Os temas de cada encontro são estabelecidos a partir de instâncias diocesanas ou paroquiais, em geral de acordo com o tempo litúrgico. Os temas que são escolhidos dizem respeito à vida do povo em sua situação social e eclesial local. O ideal é que cada tema corresponda a um texto bíblico que ilumine a reflexão e exercite a lectio divina, de modo que os participantes consigam refletir, entender e rezar sua situação pessoal, social e comunitária.
…..De modo geral, podem-se elencar quatro pilares, que abrangem o conteúdo catequético-pastoral dos Grupos de Famílias: 1) Bíblico – a Palavra de Deus é o eixo que articula o encontro das pessoas nos grupos como luz que ilumina os fatos da vida dos seus membros, da Igreja e da sociedade; 2) Teológico – as pessoas sentem-se bem nos grupos na medida em que entendem que Deus está ali, com elas. É um Deus simples no seu modo de ser e de se manifestar, o que permite ser reconhecido e acolhido pelas pessoas simples dos Grupos de Famílias; 3) Social – o livro da vida é muito importante também nos Grupos de Famílias, o que o caracteriza também como instância de reflexão dos aspectos sociais, do dia-a-dia das pessoas; e 4) Espiritual – a espiritualidade é a alma, a força e a expressão da Igreja, e, logicamente, também dos Grupos de Famílias. Ali, a espiritualidade se expressa pela religiosidade popular, em alguns momentos com a expressão sacramental (de modo especial o batismo e o matrimônio) e outras expressões inovadoras que vinculam fé e vida, oração e ação fortalecendo a mística cristã no meio social, dando sentido evangélico às lutas do cotidiano. Destaca-se nos Grupos de Famílias a espiritualidade mariana e diz-se até que a expressão mariana dá um rosto feminino à Igreja que ali se constrói.
…..Com alegria, colhem-se bons frutos a partir dos Grupos de Famílias. Tem-se reconhecido que eles são um espaço ímpar de preparação de muitas lideranças, devido à dinâmica que faculta a todos participarem, sejam adultos, jovens ou, mesmo, crianças. Mas, há também desafios e um dos maiores é o de fazer participarem dos Grupos as famílias por inteiro e também lideranças pastorais, movimentos, associações e organismos de nossa Igreja.
…..Tidos como locais de missão na Igreja, eles são a visibilidade daquilo que na teoria se chama missão, que deve ser entendida desde o chão em que nossos pés pisam, superando as visões simplistas de missão como propagação da fé e expansão da Igreja. Não deixam de ser, mas, no caso dos Grupos de Famílias o enfoque missionário é em manter, de modo dinâmico, vivo, aquilo que já se vive, reza e reflete, haja vista que a Pastoral Missionária tem como função substituir a mera pastoral de conservação (manter o estabelecido).
…..A fé cristã é intrinsecamente missionária. Dado que a missão cristã é compreendida numa relação dinâmica entre Deus e o mundo, os Grupos de Famílias são excelentes espaços para a missão.
…..Por fim, considerando os Grupos de Famílias como lugar da missão, faz-se necessário compreender que a missão exterior não é mais que a missão na diocese, na paróquia, na comunidade… A diferença entre missão exterior (outras cidades, países…) e local, não é de princípio, mas sim de alcance. Assim, ser discípulo missionário além fronteiras, ou na comunidade, na rua em que reside possui a mesmíssima dignidade, diferindo apenas o alcance.

Rafael Uliano

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OS GRUPOS DE FAMÍLIAS COMO LUGAR DA MISSÃO I

01/10/2012
Confraternização dos Grupos de Família na Paróquia de Barreirinha-AM (ano 2011)

Confraternização natalina dos Grupos de Família na Paróquia de Barreirinha-AM (ano 2011)

………Os Grupos de Famílias são tidos como prioridade, ou seja, alvo de atenção especial, de modo a valorizar e viabilizar os meios para que funcionem de modo ativo e efetivo nas comunidades que compõem as paróquias e que, agregadas, formam as dioceses. Afinal de contas, os Grupos de Famílias fazem parte da rica história de vivência da fé, da oração centrada na Palavra de Deus e na religiosidade popular, da organização das comunidades e da atuação no meio social, proporcionando às pessoas um espaço eclesial e social que lhes permite a socialização, troca de idéias e a oração a partir das esperanças, dificuldades e alegrias do dia-a-dia.
………Por estar enraizado no Evangelho e formar a experiência comunitária da fé, a realidade dos Grupos de Famílias é uma realidade de Igreja, toda perpassada pela dimensão missionária. A Igreja encontra neles um jeito próprio de ser, organizar e agir, no espírito da comunhão e participação que possibilita viver já aqui o Reino de Deus.
………Os Grupos de Famílias se propõem como um “novo modo de ser Igreja”, expressando sua natureza, identidade e missão. São grupos de Igreja que nasceram dentro da comunidade eclesial, como apelo do Evangelho. Talvez seus membros não tenham consciência explícita das dimensões de sua proposta eclesiológica, mas a vivem existencialmente, numa eclesiologia experiencial implícita e empírica.
………Os encontros dos Grupos de Famílias acontecem com periodicidade, variando entre semanais, quinzenais e mensais. Em alguns lugares, os encontros acontecem durante todo o ano; em outros, apenas em alguns períodos litúrgicos, sobretudo no Advento e na Quaresma.
………Com relação ao número de participantes dos encontros, geralmente limita-se a poucas famílias, na maioria mulheres e crianças. O número reduzido de famílias, por grupo, colabora para o desenvolvimento de relações intersubjetivas mais próximas.
………A dinâmica dos encontros se diversifica conforme a habilidade e criatividade da liderança local, lembrando que a linguagem utilizada é sempre bastante simples, o que facilita também a participação de todos.
………Podem ser elencados como eixos da dinamização dos encontros a centralidade da Palavra e o método: ver e refletir a vida da família, dialogar, rezar e celebrar, planejar ações comuns, avaliar.
………Os maiores desafios são acerca da transmissão do conteúdo, onde se podem pontuar duas situações: 1) a necessidade da formação de animadores de Grupos de Famílias com uma bagagem teórica e metodológica que capacite para uma atuação eficiente e eficaz nos grupos; 2) o fato de o conteúdo catequético pastoral dos Grupos de Famílias concorrer com outros conteúdos apresentados em outros espaços eclesiais. Evidentemente que outros desafios aparecem para toda a Igreja, acabando por atingir também os Grupos de Famílias, como os desafios da Igreja universal, diocesana, paroquial, comunitária…
………Uma boa estratégia de fortalecimento dos Grupos de Famílias é a valorização por meio da participação de encontros em nível paroquial, diocesano, comarcal, regional, nacional. E um grande facilitador disso são os encontros das CEB’s e Grupos de Família que possuem traços de eclesialidade em comum.

Rafael Uliano

ENCONTRO COM A PALAVRA DE DEUS

01/09/2012
Cristo - Monte Athos - século XVI

Cristo – Monte Athos – século XVI


………..
“Mostra-me, Senhor, teus caminhos, eu quero em teus caminhos andar” é o que nos convida a rezar o Salmo 25. O mês de setembro é tradicionalmente conhecido como o Mês da Bíblia, por isso, agora é tempo de encontrar-se com Deus através de sua Palavra. E como?

………..A Bíblia pode ser comparada a um grande pacote de sementes que você tem em casa e não se estragam. Está lá, à disposição, para que você semeie a Palavra de Deus em sua vida. Mas, se as sementes não são lançadas no terreno da vida, não poderão nela frutificar. Semente que permanece no pacote não cresce, não produz frutos no terreno. A Palavra de Deus precisa ser rezada e plantada no coração humano, através da leitura ou da escuta atenta.
………..No Evangelho de Lucas (11,1-13), os discípulos pedem: “Senhor, ensina-nos a rezar” e Jesus indicou-lhes a oração do Pai-Nosso, que é uma síntese de toda a mensagem cristã. Entretanto, não basta rezar, é preciso saber como rezar. Por isso, após ensinar a oração do Pai-Nosso, Jesus fala da parábola do amigo que bate à porta durante a noite. A insistência do amigo que, à noite, vai à busca de pão para um amigo visitante, quer lembrar de que a oração precisa ser perseverante.
………..Assim, os discípulos de Jesus crescem numa cultura que dá importância à oração. Ao ouvirem a oração de Jesus, os discípulos reconhecem a dimensão comunicativa de Deus: Ele nos ouve e nos fala. E mais, o ensinamento de Jesus não ficou restrito a um espaço geográfico, a um tempo determinado, tampouco a um povo. A oração a partir da Palavra de Deus, portanto, é um caminho a ser percorrido durante a vida toda e todo lugar. Este caminhar se dá de diferentes formas, quase sempre, pois a Palavra nos fala de diversos modos, em diversos momentos. Trata-se de uma escola da encarnação nos caminhos das realidades humanas.
………..Rezemos pela semeadura da Palavra de Deus em nossa vida. Ele nos chama (mês vocacional – agosto), fala (mês da bíblia – setembro) e envia (mês missionário – outubro).

Rafael Uliano

SEGUIR JESUS. “NÃO FOSTES VÓS QUE ME ESCOLHESTES, MAS EU QUE VOS ESCOLHI” (Jo 15,16).

01/08/2012


“Enquanto caminhavam, um homem lhe disse: Senhor, eu te seguirei para onde quer que vás. Jesus respondeu-lhe: as raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. A outro disse: segue-me. Mas ele pediu: Senhor permita-me ir primeiro enterrar meu pai. Mas Jesus disse-lhe: deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus. Outro ainda lhe falou: Senhor, eu te seguirei, mas permite primeiro que me despeça dos que estão em casa. Mas Jesus disse-lhe: aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus”
(Lc 9,57-62).

……….O texto bíblico citado refere-se ao tema do discipulado, ou seja, do chamado e do seguimento de Jesus. O primeiro e o terceiro personagem da história expressam o desejo de seguir Jesus. O segundo vocacionado, porém, é Jesus quem chama.
……….Pode-se perceber que o Senhor da Messe não deixa de chamar e também colocar condições para o seguimento. Não basta querer, é necessário ser chamado e aderir ao método proposto por Jesus. Por isso, que sempre se insiste muito em dizer que “é o Senhor que chama”: isto é vocação.
……….Refletindo, a partir da Sagrada Escritura, pode-se ver que o primeiro personagem demonstra disposição total para seguir Jesus, entretanto, desconhece as condições do seguimento. O segundo, ao ser chamado, coloca em primeiro lugar os pais (já que, se ele quer sepultar, significa que vai esperar a morte dos genitores, pois não se sabe quando isso acontecerá). Por fim, o terceiro, condiciona o seguimento à despedida dos familiares.
……….O evangelista Lucas não descreve o modo como cada um dos personagens responde ao chamado. Não se sabe se o primeiro realmente seguiu Jesus, sem garantias nem mesmo de hospedagem; se o segundo confiou o cuidado de seus pais a outros e foi cuidar da grande família de Deus; e se o terceiro também conseguiu sentir-se família, na família dos seguidores de Jesus. O fato de não se saber o que cada um deles decidiu fazer ensina que, quem deseja seguir Jesus e se sente chamado, continua com a liberdade de escolha e opção de seguir o chamado ou dele fugir, justificando-se de diversos modos.
……….O discípulo necessita ser livre para seguir Jesus. Segui-lo requer renúncia. A liberdade, por um lado, é dom, por outro, exigência. Frente à exigência do seguimento, muitos preferem a não liberdade de espírito, tanto em suas relações interpessoais quanto na estrutura socioeconômica. Decidem permanecer amarrados, embora, conscientemente, escolham seguir Jesus.
……….“Qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Não se trata, aqui, de renunciar por renunciar, mas tendo em vista a liberdade de filhos e filhas de Deus. O seguimento nos assegura a plena liberdade e, para que ela exista, é imprescindível renunciar a tudo o que impede a realização plena do seguimento.
……….Que o Espírito do Senhor nos converta em pessoas cada vez mais desapegadas de nós mesmos e de tudo aquilo que nos impede de seguir Jesus, de modo especial no mês vocacional, pois “ser cristão é um caminho, ou melhor, uma peregrinação, um caminhar juntamente com Jesus Cristo. Ir naquela direção que Ele nos indicou e indica” disse, em 2010, o Papa Bento XVI.

Vocação dos Apóstolos

Vocação dos Apóstolos

 

Rafael Uliano

FÉRIAS, TEMPO DE DEUS

08/07/2012

Berlim – Rua iluminada para a Festa das Luzes

……….Uma pequena parada, nos estudos, trabalho, afazeres ordinários faz bem a toda pessoa. O mês de julho, de modo especial para os estudantes, que gozam deste prêmio, é propício para esse descanso.
……….Qual será seu programa de férias? Descansar, através de um passeio, leituras, estando com os amigos e parentes? Há uma gama de possibilidades para que se possa desfrutar das férias com qualidade e realmente alcançar o objetivo principal: o descanso. Entretanto, além do descanso, as férias também possibilitam a contemplação da natureza refazendo as forças, cultivando a amizade numa dimensão maior. Trata-se de um retempero espiritual integral, ou seja, proporcionar a si mesmo novo sabor da presença de Deus na vida; afinal, uma vida sem Deus é como um prato belíssimo, porém sem sabor.
……….Férias, enfim, é tempo de gratidão a Deus pelos estudos, trabalhos, amizades, dom da vida, pela saúde e conquistas alcançadas. Aproveite bem as suas férias. E não se esqueça de elevar um pensamento de gratidão a todas as pessoas, homens e mulheres, que se dedicam na prestação de serviços às pessoas, durante o tempo das férias. Graças ao seu trabalho, podemos usufruir desses momentos agradáveis. A todos, o nosso agradecimento, recomendando-os a nosso Senhor, pois “tudo é nosso, mas nós somos de Cristo”.

Rafael Uliano

PAIXÃO OU SENTIMENTO?

14/05/2012

Ceia – Elena Cherkasova


……….
A palavra paixão é originária do latim “partire” que significa “sofrer” no português. Daí deriva a palavra “compaixão”, que lembra o “sofrer com”.
……….O amor, falando-se a partir do sacramento do matrimônio, não se configura como mero sentimento, afinal “Deus é amor” (cf. 1 Jo 4,16). Assim, amar é muito mais que ter sentimentos por alguém: “Amar é dar a vida” (cf. Jo 15, 13).

……….Se os sacramentos, e de modo especial o do matrimônio, não forem vividos à luz do Cristo na cruz, à luz do mistério da cruz (um amor que já não é sentimento, mas sim abnegação, misericórdia, oblação…) não se entendeu o que é amar. Na vida matrimonial experiencia-se um contínuo entregar-se pelo outro. De mais a mais, quando Deus entregou seu Filho único pela humanidade, na cruz, não pediu que cada um entregasse sua vida por Deus, e sim, por Deus nos irmãos e irmãs.
……….Amar é sempre pedir perdão. No filme “Endless Love” – “Amor sem fim”, de 1981, dirigido por Franco Zeffirelli, numa cena se diz que quem ama não precisa pedir perdão. Eis uma frase que vai contra a proposta de Cristo. O pedir perdão é, antes de tudo, ter consciência de que não existe convivência que possa dispensar essa atitude remissiva.
……….Na atualidade, muitos se casam pelo sentimento, o que vem sendo causa de inúmeros fracassos matrimoniais. É necessário o amor-compromisso, cristão, oblativo, pois, só assim, “o amor jamais acabará” (cf. 1Cor 13,8). E mais, o amor verdadeiro não está pronto, mas está por construir-se a cada instante, a cada dia… O amor cristão não deixa de ser sempre mais atual através da cruz: dela irradia a força para que a casa construída sobre a rocha não desabe.
……….Um dos pensadores fundamentais do século XX, Martin Heidegger, dizia que relacionar-se “é estar no mundo junto de outros”. Assim, também o relacionamento conjugal deve ser visto pela ótica da convivência familiar. Quando homem e mulher casam-se, diz o livro do Gênesis, tornam-se uma só carne, ou seja, não se vive mais apenas para si, mas, de modo especial, para o bem do outro. E para indicar a força desse ensinamento que também não deixa de ser atual, Martin Buber afirmou que “o ser humano é um ser de relações”. Portando, uma sadia relação que leva ao amor apaixonado, amor doação ao outro, e não a simples sentimentos é o itinerário que deve perpassar toda a preparação e posterior vivência matrimonial do casal moderno.

Rafael Uliano

ALGUNS AINDA GRITAM: CRUCIFICA-O!

17/04/2012
Natividade do Senhor - Perugino

Natividade do Senhor - Perugino

……….O panorama vislumbrado no Brasil é de tonalidade ambígua. De um lado, os pragmáticos celebram a votação favorável ao aborto de fetos sem cérebro, os chamados anencéfalos, por parte do STF (Supremo Tribunal Federal); doutro, uma gigantesca massa humana revoltada com os votos favoráveis, como se percebeu através das Redes Sociais. Foram as mais diversas mensagens, e-mails contendo reflexões e imagens que corroboram aquilo que o Instituto Vox Populi já divulgou em 2010: “em média, 80% da população brasileira é contra o aborto”.
……….
Como contentar-se, num país democrático, com atitudes impostas dessa forma, como se todos fossem “vaquinhas de presépio”, balançando a cabeça de modo afirmativo a tudo que se define na Suprema Corte… E mais, está correto um grupo de onze pessoas, que não foram eleitas pelo povo, definirem aquilo que seria papel dos realmente representantes dos cidadãos?
……….
Essa reflexão, porém, não pode ser desestimuladora; ao mesmo tempo não se pode querer justificar tudo. Há poucos dias celebrou-se a Páscoa cristã… Quem participou do chamado Tríduo Pascal, pôde reviver os últimos passos de Cristo, após sua prisão, condenação e morte. O pequeno grupo que condenou o Filho de Deus, porém, não foi o vencedor! O Senhor ressuscitou, vive e reina para sempre. O próprio Jesus assegurou a Pedro que as “portas do inferno não prevaleceriam”. Portanto, a Páscoa de Jesus, que comemora a vitória da vida sobre a morte, inspira todos a reafirmarem com convicção que a vida humana é sagrada e sua dignidade, inviolável.
……….
Não é intenção, aqui, insinuar que alguns dos membros do STF, com tais votos, estejam no inferno; afinal, quem somos nós para julgar nossos semelhantes? O desejo é apenas refletir à luz da morte de Cristo, inocente, a morte de tantos e tantas inocentes daqui em diante. Será que essa “liberação” do aborto de anencéfalos não seria o princípio de uma ladeira escorregadia neste campo da bioética onde, daqui a pouco, ninguém segurada mais nada?
……….
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) se pronunciou: “legalizar o aborto de fetos com anencefalia, erroneamente diagnosticados como mortos cerebrais, é descartar um ser humano frágil e indefeso”. De fato, apresenta-se como das piores covardias o ato de matar um inocente indefeso. E mais, a ética que proíbe a eliminação de um ser humano inocente, não aceita exceções.
……….
Os comentários a favor da descriminalização do aborto de anencéfalos foram dos mais variados; alguns até bem ponderados, e que deixam os leitores e ouvintes indecisos em sua postura em relação ao caso. Contudo, a favor da vida vale a pena refletir: que dizer das duas meninas que nascerem sem cérebro e que vivem hoje, uma no Brasil com dois anos, chamada de Vitória de Cristo e outra, no México, com sete anos? A mãe de Vitória, de São Paulo, disse recentemente, numa entrevista: “ela é uma criança com deficiência neurológica e precisa de estimulação, porém, ela não é um vegetal, não é uma coisa. Ela é um ser humano com sentimentos”. O pai também afirmou que a criança sorri quando recebe carinho.
……….
Diante do exposto, pairam dúvidas ainda acerca do fato de ser pessoa ou não? Infelizmente, vive-se hoje como se Deus não existisse, e alguns grupos continuam crucificando Jesus, mesmo sabendo que não adianta lutar contra um Deus apaixonado pela humanidade: a vida vence a morte.

Rafael Uliano

PECADO? NÃO EXISTE MAIS!

21/03/2012
A Pecadora perdoada - MARGHERITA M. PAVESI

A Pecadora perdoada - MARGHERITA M. PAVESI

……….O sacramento da Penitência é também o da conversão e da reconciliação com Deus do cristão, pecador arrependido, através do perdão da Igreja.
……….Em relação à situação atual e à consciência do pecado, pode-se perguntar o que se entende por sentido ou consciência do pecado em si?
……….A psicologia moderna fala da experiência da culpa, própria de cada ser humano, e procura descobrir-lhe o dinamismo interior e individualizar os fatores que estão na sua origem. É verdade que nesta procura podem existir e existem exageros: há certo psicologismo que não deixa lugar à verdadeira responsabilidade da pessoa, pois quer explicar todas as ações e atitudes a partir dos condicionamentos biológicos, do inconsciente ou do ambiente. Chega-se, dessa maneira, facilmente, a falar de “doentes” ao invés de “pecadores”; de “doenças” mais que de “pecados”. O pecado existe, não pode ser negado! “Se dizemos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a Verdade não está em nós” (1Jo, 1,8).

……….É perceptível que a psicologia moderna pode colocar problemas difíceis para a elaboração da teologia do pecado, ou então, uma teologia fechada pode requerer para si toda e qualquer resolução inerente à realidade psico-espiritual. A colaboração entre teologia e psicologia, sobre o tema, está apenas em seus inícios – é necessário avançar muito na reflexão, de modo que uma ciência poderá ajudar a outra, mas não simplesmente anular-se mutuamente.
……….Todavia, como conceber o pecado num mundo secularizado ou em via de secularização? Quando a sociedade era permeada de sacralidade, de religiosidade, era mais fácil viver tendo Deus como referência. Toda a vida do grupo social era circundada e repleta de sacralidade, mediante a qual o homem se encontrava em contato com o divino.
……….A sociedade secularizada, ou em via de progressiva secularização, porém, tende a desencantar, dessacralizar a natureza física e os mistérios da vida. Os próprios valores morais e os sistemas de valores não são mais sentidos como reflexo da ordem eterna, como sagrados, mas sim, vividos como fortemente condicionados e mutáveis segundo o ritmo das mudanças socioculturais da história. Essas poucas idéias põem em crise a concepção de pecado.
……….Não é necessário voltar atrás, ser saudosista em relação ao passado, todavia, não se pode também passar a borracha no pecado. Ele existe e apresenta-se em três dimensões: a) como recusa a Deus; b) como recusa aos outros; c) como recusa e negação de si mesmo.
……….A teologia do pecado é animada pela fé: só à luz da Palavra de Deus o pecador toma consciência da realidade da sua culpa… O tempo presente, marcado pelo individualismo, capitalismo, cultura pansexual, etc…, não colabora para que cada cristão empenhe-se pessoalmente na superação do pecado… A partir disso, pode-se dizer que o pecador já é penitente quando enfrenta essas barreiras da missão cristã, em busca da conversão, da abertura ao amor de Deus que se estende aos irmãos; de mais a mais, “não há ninguém que não peque” (1Rs 8,46).

Rafael Uliano

ARDOR MISSIONÁRIO NO AMAZONAS

27/01/2012

……….Um mês de missões no Amazonas, mais propriamente na Paróquia Nossa Senhora do Bom Socorro da cidade de Barreirinha, foi muito rico para conhecer e estar em contato com uma realidade bem diversa da que se vive no Sul de Santa Catarina, tanto no âmbito eclesial como nos demais.
……….A chegada em Manaus, capital do Estado, a ida para o interior utilizando-se dos diversos meios de locomoção: carro, avião, barco, voadeira (lancha rápida), rabeta (canoa com motor) foram experiências que deixaram marcas muito fortes.
……….De início, um choque cultural quanto à alimentação, despreocupação com horários… Só para dizer, algumas missas e outros compromissos chegaram a atrasar quase duas horas para ter seu início. Quando se fala em iniciar algo às 19h, por exemplo, o povo subentende que a partir desse horário devem começar sair de casa ou então, começar a “arrumar-se” para isso.
……….A experiência que mais exige, nesse campo missionário, é a visita às comunidades indígenas Satere-Mawé, por vários fatores: a locomoção acontece com 2h40 de voadeira, mais 1h40 de barco, 6h20 de rabeta… Em síntese, contando com as paradas para refeições, na maioria das vezes feitas à beira dos rios, se gasta em torno de 12horas no trajeto (que ainda não é o maior deles, nos limites desta paróquia). A alimentação é típica: farinha, peixe e arroz. O que chama atenção, porém, é que os índios, por força da modernização têm celulares que, se ao menos houvesse sinal de telefonia no local, poderiam até acessar a internet. Desse modo, utilizam os aparelhos apenas como câmera fotográfica. Hoje em dia, pelo menos esses índios, parecem não caçar mais, tanto é que compram até o peixe com o dinheiro que ganham mensalmente do Governo, de acordo com o número de filhos (bolsa família, escola…).
……….Os padres do PIME (Pontifício Instituto das Missões Exteriores), que começaram há vários anos o trabalho de evangelização nestas terras, são em sua maioria idosos, mas possuem uma força invejável. Não se cansam de viajar horas e horas para atender às comunidades… Quando nelas chegam, atendem confissões, orientam pessoas, celebram a eucaristia, jantam o que é preparado pela comunidade e, às vezes, dormem no barco, para que no dia seguinte sigam viagem rumo a outra comunidade. Cativante a figura do bispo local, Dom Juliano, que já foi pároco na Ponte do Maroim (Arquidiocese de Florianópolis): um exemplo de humildade e serviço.
……….Por fim, vale dizer que a presença de padres, religiosas e seminaristas brasileiros nesta região amazônica é muito importante, dado que o povo está acostumado com estrangeiros… Corrobora isso o fato que, desde que a Diocese de Tubarão iniciou o envio de alguns de seus seminaristas para Barreirinha, três moços decidiram entrar no seminário e duas moças entraram em comunidades de vida… Estes, querem ser missionários, ou seja, entendem que existem ainda lugares que precisam mais do que a própria pátria. Mas, esse despertar se deu com a presença de brasileiros por lá, haja vista que, no senso comum, ser padre ou religiosa é coisa de estrangeiro. A Igreja na Amazônia necessita de missionários, pois a messe é imensa.

Rafael Uliano

UM “PULMÃO” ESPIRITUAL NA PRINCESINHA DO RAMOS

25/12/2011

……….Barreirinha é um município brasileiro no interior do estado do Amazonas. Pertencente à Mesorregião do Centro Amazonense e Microrregião de Parintins, localiza-se a leste de Manaus, capital do Estado, distando desta cerca de 331 quilômetros. Esta terra viu nascer o renomado poeta Amadeu Thiago de Mello, que nasceu em 1926 e depois de girar pelo mundo, vive novamente na cidade.
……….A população, contada pelo IBGE em 2010, era de 27.361 habitantes, sendo assim o vigésimo segundo município mais populoso do estado do Amazonas e o terceiro de sua Microrregião.
……….Paraná do Ramos é o braço mais comprido do Rio Amazonas, no meio do pedaço mais verde do planeta: a Amazônia. E Barreirinha está ali: é banhada por ele e pelo Rio Andirá.
……….Desde 15 de dezembro, juntamente com outro colega, fazemos uma experiência e, ao mesmo tempo, estágio neste local. Está sendo um tirocínio belíssimo de contato com esse povo que vive em casas simples, veste-se de maneira simples, fala de modo simples e é muito feliz. Aqui se pode “tocar a fé do povo com as mãos”, como disse um professor dias antes de nossa vinda.
……….Na cidade, as pessoas utilizam-se muito de motos e triciclos (motorizados ou não). Para as comunidades do interior o barco, voadeira (lancha rápida) ou rabeta (canoa com motor). A fauna e a flora são generosíssimas. Tivemos a oportunidade de comer frutas, beber sucos fresquinhos, alimentarmo-nos de vários peixes… Não se avistam cobras e jacarés como se pode pensar. Existem, mas eles não costumam compartilhar o mesmo espaço com os humanos. Os jacarés são vistos mais nas beiras dos rios, quando sobem para “pegar sol”, ou à noite, quando os holofotes das embarcações iluminam seus olhos sobre as águas.
……….Acerca dos animais, ditos perigosos, cabe uma reflexão feita pelo bispo local Dom Giuliano: “Eles invadem o território humano ou os humanos invadiram o território que era deles? Quem chegou ao local primeiro?”.
……….Existem também, em torno de Barreirinha, cerca de 30 comunidades indígenas que são atendidas por dois padres. Nos próximos dias conheceremos também alguns destes locais, juntamente com o bispo, que lá ministrará a Crisma.
……….Enfim, estar em Barreirinha é respirar ar puro, do coração da Amazônia, no pulmão do mundo, no Estado do Amazonas. Barreirinha é conhecida como a Princesinha do Ramos (o braço do Rio Amazonas)… Realmente é portadora de beleza e simplicidade. Afinal, foi também na pequenez, na simplicidade e na beleza humilde que o Filho de Deus nos foi dado. Feliz Natal!

Rafael Uliano